Categoria: Arquitetura civil > Palacete
Distrito: Lisboa > Lisboa > Belém
A antiga residência do governador do Forte do Bom Sucesso situa-se em Belém, freguesia do concelho de Lisboa, entre a Avenida da Índia e a Rua do Arco da Torre, numa área marcada pela proximidade ao Tejo e pelo ambiente histórico que caracteriza esta zona ribeirinha. A envolvente é tranquila, com árvores de grande porte e pequenos jardins que mantêm o carácter aprazível de outrora.
O edifício destaca-se pela elegância discreta da sua fachada colorida e simétrica, que reflete a harmonia arquitetónica típica de Belém. A disposição do conjunto e o espaço ajardinado à frente mantêm uma atmosfera de serenidade, evocando o antigo contacto direto com a praia do Bom Sucesso, hoje desaparecida.
A residência foi construída por volta de 1780, ao mesmo tempo que o Forte do Bom Sucesso, sob a direção do general Vallerée. A sua função era servir de moradia ao governador da fortaleza, parte integrante da linha defensiva ocidental de Lisboa.
Uma inscrição datada de 1802, colocada sobre uma das portas, confirma a pertença do edifício à Coroa portuguesa e assinala a sua integração no património militar da época. De planta retangular e com fachada de dois registos e águas-furtadas, a casa apresenta um grande arco central no piso térreo, que antigamente servia de passagem para o rio. Este elemento arquitetónico, raro e distintivo, deu origem ao nome Casa do Arco da Torre.
A construção, de inspiração oitocentista, combina simplicidade e sobriedade com detalhes de gosto nobre. As fachadas são marcadas por pilastras verticais que dividem o conjunto em três panos equilibrados. No piso superior, abrem-se janelas de sacada com varandins de ferro, e ao nível do telhado surgem pequenos mezzaninos que iluminam as águas-furtadas.
Na sua origem, o arco central funcionava como túnel coberto que ligava o interior da propriedade à antiga praia do Bom Sucesso. Era por esse caminho que se acedia diretamente à beira-rio, numa época em que Belém era ainda uma zona de veraneio muito procurada pelas famílias lisboetas. A fachada posterior mantém a mesma composição da principal, reforçando o equilíbrio e a simetria do conjunto.
A residência ficou associada a uma das figuras mais marcantes da literatura portuguesa: Almeida Garrett. O escritor passou aqui o verão de 1852, após ter abandonado o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros. Procurava o sossego e o ar puro de Belém, então uma zona semi-rural com praias e quintas de recreio.
Nos registos biográficos da época, o local é descrito como a “casa do arco da passagem para a torre”, referência ao túnel abobadado que ligava diretamente à praia. Garrett encontrou aqui refúgio e inspiração, numa das suas últimas temporadas de descanso, pouco antes do final da sua vida. A passagem do autor de Viagens na Minha Terra confere ao edifício um valor simbólico e cultural que se junta ao seu interesse histórico e arquitetónico.
Hoje, a antiga residência mantém grande parte da sua traça original, cuidadosamente preservada. O edifício destaca-se pelas cores suaves, pelos telhados de telha laranja e pelos detalhes em ferro forjado, integrando-se harmoniosamente no tecido urbano de Belém.
A envolvente ajardinada e o pátio interior contribuem para um ambiente acolhedor, que conserva a memória do tempo em que o Tejo se estendia até às portas da casa. O conjunto é um testemunho da história militar e civil de Lisboa e continua a evocar a relação entre a cidade, o rio e as personalidades que ali deixaram a sua marca.
Licença: https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0/deed.pt
Coordenadas DD: 38.69414788755605,-9.215807437152753
Coordenadas DMS: 38°41'38.9"N 09°12'56.9"W